Perspectiva

Acabei de ver algumas imagens que o fotógrafo brasileiro Matheus Felipe publicou em
sua rede social com os dizeres: “a perspectiva muda tudo”.

Isso me lembrou do dia em que recebi as fotografias do Mateus em nossa casa pela
primeira vez. São duas paisagens que há dois anos adornam a parede da sala. Numa
é possível identificar uma certa pradaria coberta pela névoa do amanhecer. Noutra, a
mesma paisagem, mas aproximada, em que se vê uma araucária singular
despontando no centro, parcialmente coberta de névoa.

Não tenho dúvidas de que essas imagens representam uma metáfora. E uma bastante
útil para mim. Embora à arte não se precise atribuir funcionalidade prática para além
da representação do Belo, aquelas imagens dependuradas na parede de casa são
avisos em dias atribulados: pare e ajuste a perspectiva.

Atrasar o jantar, perder um par do sapato ou tropeçar nos brinquedos espalhados por
todo chão não são problemas. A montanha de roupa para lavar e louça para guardar
também não são. Ajuste o olhar, as imagens ditam. E é preciso obedecê-las mesmo a
contragosto.

O dia a dia ganha uma rica complexidade de significados na mesma medida em que
somos capazes de enxergar para além da névoa da manhã. A realidade, com suas
dificuldades, dores, afazeres intermináveis e angústias insondáveis é um milagre.
É um milagre que haja uma imponente araucária sob o nevoeiro espesso que paira
sobre os montes da fotografia. O que é pequeno deve permanecer pequeno, e o que é
grandioso mais dia, ou menos dia, encontra seu lugar à luz porque sempre esteve ali,
ainda que invisível aos olhos. E isso só pode ser um milagre.

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